Porão...

Tenho em mim...
Um porão habitado por mulheres acorrentadas.
Sem rostos, sem gostos.
Unidas a correntes, que as trancam impedidas de andar.
São tristes vivem a chorar.
Sofrendo o abandono...
Não vejo seus olhos, mas sinto que me olham pedindo liberdade.
São destratadas, desarrumadas aparentando mendigas... 
que esmolam atenção.
No porão não há portas nem janelas, mas vejo raios de sol!
Olho a todas uma a uma...
E vejo a mãe, a irmã...
Vejo a amiga, a amante...
Vejo a mulher nas mulheres acorrentadas.
Vejo-me então!
Tenho rostos, tenho gostos...
Mas me acorrentei ao porão, prisioneira da covardia.
Porque essas mulheres são tudo que sou e temo ser...
Então as acorrentei em mim na ilusão que nunca faria falta.
Que poderia tola eu, viver ignorando quem sou.
Mas essas mulheres que sou... Já não suportam viver assim.
Assim sem vida, acorrentadas à covardia do meu medo de ser.
Esse porão já é pouco, as correntes machucam...
Há em mim uma rebelião... Pedem que eu viva e as deixe viver!
Não mais suporto acorrentá-las...
Suas correntes meus tornozelos machucam, suas tristezas 
são minhas.
E a solidão me acorrenta junto a todas que sou somente sozinha.

Carmen SS

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